Desde criança, você se sentia diferente. Conversas em grupo cansavam, barulhos incomodavam mais do que aos outros, mudanças de plano desorganizavam o dia inteiro. Você aprendeu a observar e imitar para se encaixar, e ficou boa nisso, mas a um custo alto. Hoje, ouvindo relatos de adultos autistas, algo faz sentido pela primeira vez. Essa experiência tem se tornado cada vez mais comum.
Por que tantas pessoas descobrem tarde
- Menos conhecimento no passado: durante muito tempo, o autismo foi associado apenas a crianças com grandes necessidades de suporte.
- Necessidade de suporte menor: pessoas que conseguem estudar, trabalhar e se relacionar podem passar despercebidas, mesmo com muito esforço por dentro.
- Mascaramento: a estratégia de esconder características autistas para se adaptar, como ensaiar conversas, imitar expressões e suprimir comportamentos.
- Diferenças entre gêneros: meninas e mulheres costumam ser diagnosticadas mais tarde, em parte porque mascaram mais e porque os interesses e sinais podem ser menos evidentes.
- Outros diagnósticos antes: muitas pessoas recebem primeiro diagnósticos de ansiedade, depressão ou outros, que podem coexistir, mas não explicam tudo.
O custo do mascaramento
Mascarar exige muita energia. Depois de um dia de interações, a pessoa pode se sentir completamente esgotada. Com o tempo, o esforço constante pode contribuir para ansiedade, depressão, sensação de não saber quem se é e episódios de esgotamento intenso. Leia Desligar para não sentir.
Como o autismo pode aparecer em adultos
De forma geral, o autismo envolve diferenças na comunicação e na interação social, padrões de comportamento e interesses mais restritos ou repetitivos e diferenças sensoriais. Em adultos, isso pode aparecer como:
- cansaço intenso depois de situações sociais;
- preferência por rotinas e desconforto com mudanças inesperadas;
- sensibilidade a sons, luzes, cheiros ou texturas;
- interesses muito intensos e aprofundados;
- dificuldade com “regras não ditas” das conversas;
- comunicação mais direta e literal.
Essas características variam muito de pessoa para pessoa e, sozinhas, não indicam autismo. Esta lista não serve para autodiagnóstico.
Como é a avaliação em adultos
A avaliação é feita por profissionais com experiência em autismo na vida adulta, como psiquiatras, neurologistas e psicólogos, às vezes com avaliação neuropsicológica. Envolve entrevistas sobre a história desde a infância, informações de pessoas próximas quando possível, instrumentos específicos e a investigação de outras condições. Não existe exame de sangue ou de imagem que faça o diagnóstico.
Depois do diagnóstico
Muitas pessoas descrevem alívio: finalmente há uma explicação para tanto esforço. Também pode haver tristeza pelo tempo em que não se sabia, raiva por não ter sido percebida antes e a necessidade de rever a própria história. É um processo de reorganizar a identidade.
O diagnóstico pode ajudar a fazer adaptações na rotina, no trabalho e nas relações, a respeitar os próprios limites e a se aproximar de outras pessoas autistas.
Como a terapia pode ajudar
A psicoterapia pode apoiar adultos autistas a lidar com ansiedade, esgotamento, relações e autoestima, com adaptações que respeitem o seu jeito de funcionar, sem tentar “corrigir” quem você é. Leia também Timidez e habilidades sociais e saiba mais sobre a Terapia do Esquema.
Fontes e referências
Organização Mundial da Saúde — Autism
NICE — Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management (CG142)
American Psychiatric Association. DSM-5-TR: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2023.
Hull, L. et al. “Putting on my best normal”: social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(8), 2017.
Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.