Algumas lembranças continuam doendo, mesmo depois de muitos anos. Você entende racionalmente que aquilo passou, que não foi sua culpa, que hoje está em outro lugar. Mas, quando algo parecido acontece, o corpo reage como se estivesse lá de novo. A reescrita de imagens é uma técnica da Terapia do Esquema pensada justamente para esse tipo de experiência, em que entender não é suficiente para sentir diferente.

O que é a reescrita de imagens

A reescrita de imagens, também chamada de imagery rescripting, é uma técnica experiencial. Em vez de apenas conversar sobre uma lembrança, a pessoa é convidada a imaginar a cena, com os olhos fechados se se sentir confortável, e, com a ajuda da terapeuta, a construir um novo desfecho, em que as necessidades que ficaram sem resposta naquele momento são finalmente atendidas.

A técnica é usada na Terapia do Esquema e também foi estudada em outras condições, como estresse pós-traumático, ansiedade social e imagens intrusivas.

Não muda o que aconteceu

É importante dizer: a reescrita não apaga lembranças nem cria memórias falsas. O que aconteceu continua sendo o que aconteceu. O que muda é o significado emocional da lembrança. A criança que se sentiu sozinha, culpada ou desprotegida passa a viver, na imaginação, uma experiência de proteção, cuidado e validação. Isso ajuda a enfraquecer mensagens antigas como “não sou importante” ou “a culpa foi minha”.

Como costuma acontecer na sessão

  1. Uma situação atual: o ponto de partida costuma ser uma emoção forte vivida recentemente.
  2. A ponte para o passado: a pessoa percebe se aquela emoção lembra alguma cena antiga.
  3. A cena antiga: com cuidado e no ritmo da pessoa, a cena é imaginada brevemente.
  4. A entrada de um adulto protetor: no começo, muitas vezes é a terapeuta que “entra” na cena para proteger e cuidar da criança. Com o tempo, a própria pessoa, como adulto saudável, assume esse papel.
  5. O que a criança precisava: a cena termina com a necessidade atendida: proteção, conforto, alguém que diga que não foi culpa dela.
  6. Conversa depois: a experiência é conversada e relacionada com a vida atual.

Cuidados e segurança

  • a técnica só é usada quando há vínculo e estabilidade suficientes;
  • você sempre pode abrir os olhos, pausar ou parar;
  • o foco não é reviver a dor em detalhes, mas chegar ao cuidado;
  • a terapeuta explica a técnica antes e pede seu consentimento;
  • pode ser feita presencialmente ou online, com um ambiente reservado.

Para quem pode ser útil

A reescrita pode ajudar pessoas com esquemas ligados a experiências difíceis da infância, como privação emocional, abandono ou uma voz interna muito crítica. Leia O crítico interno. A indicação depende sempre da avaliação.

Saiba mais sobre a Terapia do Esquema e conheça os 18 esquemas.

Fontes e referências

Arntz, A.; Weertman, A. Treatment of childhood memories: theory and practice. Behaviour Research and Therapy, 37(8), 1999.

Morina, N.; Lancee, J.; Arntz, A. Imagery rescripting as a clinical intervention for aversive memories: a meta-analysis. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 55, 2017.

Young, J. E.; Klosko, J. S.; Weishaar, M. E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.

Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.