Até pouco tempo atrás, ele contava tudo. Agora, a porta do quarto vive fechada, as respostas são “normal”, “nada”, “tanto faz”, e qualquer pergunta parece invasão. Muitos pais se sentem rejeitados e perdidos nessa fase. A boa notícia é que o afastamento é, em parte, esperado, e que existem formas de manter o vínculo sem sufocar.

O que é esperado na adolescência

A adolescência é um período de construção de identidade e autonomia. É natural que o adolescente busque mais privacidade, valorize mais a opinião dos amigos e questione as regras da casa. O cérebro também passa por mudanças importantes, especialmente nas áreas ligadas às emoções, à recompensa e ao controle de impulsos.

Afastar-se um pouco dos pais faz parte desse processo. Isso não significa que eles não precisam mais de você. Precisam, mas de um jeito diferente.

Como abrir espaço para conversar

  • Aproveite momentos informais: no carro, cozinhando, caminhando. Conversas lado a lado costumam ser mais fáceis que frente a frente.
  • Escute sem corrigir logo: se cada história vira sermão, ele vai contar menos.
  • Interesse-se pelo mundo dele: músicas, jogos, séries, amigos, mesmo que não seja o seu gosto.
  • Faça perguntas abertas: “o que foi bom hoje?” funciona melhor que “como foi a escola?”.
  • Compartilhe algo seu: contar dificuldades da sua adolescência pode aproximar.
  • Respeite o tempo dele: às vezes, a conversa vem horas depois, tarde da noite.

Privacidade e limites

Respeitar a privacidade não significa abrir mão de saber onde ele está, com quem e se está seguro. Combinados sobre horários, uso de telas e segurança continuam importantes, e funcionam melhor quando são conversados e explicados. Leia Telas e crianças e Limites e acolhimento.

Sinais que merecem mais atenção

Nem todo silêncio é esperado. Fique atento se perceber:

  • isolamento intenso, inclusive dos amigos;
  • tristeza, irritação ou choro persistentes;
  • queda importante no rendimento escolar;
  • mudanças grandes no sono ou na alimentação;
  • uso de álcool ou outras substâncias;
  • sinais de automutilação ou falas sobre morte;
  • indícios de bullying ou de violência.

Diante de falas sobre morte ou sinais de autolesão, não espere: busque ajuda profissional. Em risco imediato, ligue SAMU 192. O CVV (188) também atende adolescentes e familiares.

Como a psicologia pode ajudar

A psicoterapia pode oferecer ao adolescente um espaço próprio, com sigilo, para falar do que sente. A orientação parental ajuda os pais a compreender essa fase, rever a forma de se comunicar e lidar com as próprias emoções diante do afastamento.

Fontes e referências

Siegel, D. J. Cérebro adolescente: o grande potencial, a coragem e a criatividade da mente dos 12 aos 24 anos. São Paulo: nVersos, 2016.

UNICEF — Positive parenting

CVV — Centro de Valorização da Vida

Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.