Culpa por voltar ao trabalho. Culpa por querer um tempo sozinha. Culpa por ter gritado, por ter dado o celular para ter dez minutos de silêncio, por não ter feito a festa perfeita, por não ter amamentado como planejava. Para muitas mães, a culpa parece vir junto com a maternidade. Ela é comum, mas não precisa comandar a relação com os filhos, nem com você mesma.

De onde vem tanta culpa

Parte dela vem de expectativas sociais: a ideia de que a boa mãe está sempre disponível, paciente, feliz, e dá conta de tudo sem reclamar. Essa imagem é impossível de alcançar, e todo desvio dela vira motivo de culpa.

As redes sociais reforçam essa pressão, com rotinas organizadas, crianças sorridentes e mães que parecem não se cansar. Leia Comparação nas redes sociais.

Também há fatores pessoais: autocobrança, padrões muito elevados, dificuldade de reconhecer as próprias necessidades e, às vezes, o desejo de dar aos filhos algo que você mesma não teve.

Culpa ou responsabilidade?

Existe uma diferença importante. A responsabilidade reconhece um erro real e busca reparar: “gritei com meu filho, vou conversar com ele e pedir desculpas”. A culpa excessiva transforma qualquer situação em prova de que você é uma mãe ruim, e não leva a mudanças, só a sofrimento.

Uma pergunta que ajuda: “essa culpa está me mostrando algo que posso fazer diferente, ou só está me atacando?”.

A mãe suficientemente boa

O pediatra e psicanalista Donald Winnicott falava da “mãe suficientemente boa”: aquela que atende as necessidades da criança na maior parte do tempo, mas também falha, e que, ao falhar e reparar, ajuda a criança a lidar com a realidade. Crianças não precisam de mães perfeitas. Precisam de vínculos seguros, com espaço para erros e reparações.

Leia Limites e acolhimento: como cuidar dos filhos sem precisar ser perfeito.

O que pode ajudar

  • Perceber o tom da voz interna: você falaria assim com uma amiga mãe?
  • Rever as expectativas: são realistas para a sua rotina e os seus recursos?
  • Dividir a responsabilidade: a criação dos filhos não deveria ser tarefa de uma pessoa só.
  • Cuidar das suas necessidades sem precisar justificá-las. Leia Culpa ao descansar.
  • Praticar a reparação em vez da autopunição.
  • Conversar com outras mães de forma honesta, sem a versão editada.

Quando buscar apoio

Se a culpa é constante, se vem com tristeza, irritação ou exaustão intensas, ou se está afetando sua relação com os filhos, vale procurar ajuda. Depois do parto, sintomas persistentes de tristeza, ansiedade ou desinteresse merecem avaliação, porque podem indicar depressão pós-parto.

A orientação parental é um espaço para mães, pais e responsáveis pensarem a relação com os filhos sem julgamento. Leia também Esgotamento de quem cuida.

Fontes e referências

Winnicott, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Young, J. E.; Klosko, J. S.; Weishaar, M. E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.

UNICEF — Positive parenting

Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.